Todo escritor tem um em que não só admira o conjunto da sua obra, quanto
tem nele uma referência quando escreve. No meu caso, o meu escritor de
referência é o paulistano Marcos Rey, um escritor que, embora tenha ficado
conhecido no universo infanto-juvenil (publicou quinze livros na finada coleção
Vaga-lume, da Ática), publicou também obras adultas, duas delas inclusive
recebendo o prêmio máximo da literatura brasileira, o Prêmio Jabuti.
Marcos Rey, pseudônimo de Edmundo Donato, era um mestre da narrativa e
um escritor versátil. Antes de se dedicar somente a literatura, algo que
ocorreu quando tinha por volta de 60 anos (morreu aos 74 anos), produziu
roteiros de pornochanchada, telenovelas e minisséries, programas de rádio e
peças publicitárias. Toda essa experiência foi o combustível para o
desenvolvimento de seus personagens, tramas e enredos que tinha a cidade de São
Paulo como pano de fundo.
Outra experiência que o marcou e que aparece em algumas das suas produções,
foi a sua internação compulsória, como um prisioneiro, na década de 1940,
quando descobriu que tinha hanseníase, conhecida antes como lepra. Na política
paulista higienista da época os doentes eram retirados de circulação sendo
aprisionados em sanatórios espalhados pelo estado de São Paulo. A doença e toda
essa história só foi revelada quando o escritor morreu em 1º de abril de 1999.
Até então, a informação circulava entre os familiares.
É possível conhecermos os detalhes da trajetória profissional e pessoal
de Marcos Rey ao lermos duas obras que estão no mercado e que nos oferecem essa
possibilidade. A primeira é uma biografia escrita em 2004 pelo jornalista da
Veja São Paulo, Carlos Maranhão, intitulada Maldição e glória - a vida e o
mundo do escritor Marcos Rey. A segunda é a autobiografia O caso do filho doencadernador: romance da vida de um romancista lançada pela Editora Global no
início dos anos 2000.
A trajetória de Marcos Rey serve de referência para os aspirantes a
escritores, pela sua persistência em nunca desistir de escrever histórias,
publicar e viver de literatura, mesmo que isso tenha chegado muito tarde e que
tivesse de produzir, com o seu talento, trabalhos de que não apreciasse muito.
Inclusive esses trabalhos fora da literatura não lhe rendeu o prestígio e o
reconhecimento de outros escritores e críticos da sua época. Atribuía isso a
sua atuação como criador de textos para os meios de comunicação de massa, em
alguns casos, por obrigação contratual e de interesse ou gosto duvidoso. Tais
críticas considero inócuas, pois conquistar por duas vezes o Prêmio Jabuti,
receber o troféu Juca Pato de Intelectual do Ano de 1995 depois de votação
nacional tendo como concorrente o antropólogo Darcy Ribeiro, ocupar a cadeira
17 da Academia Paulista de Letras e formar um incontável número de jovens
leitores brasileiros que tiveram contato com os seus livros, são indicadores
suficientes da qualidade e do reconhecimento da importância da obra e do
escritor Marcos Rey para a história da literatura brasileira.

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