sexta-feira, 21 de junho de 2019

Um escritor que amava a pauliceia desvairada


Todo escritor tem um em que não só admira o conjunto da sua obra, quanto tem nele uma referência quando escreve. No meu caso, o meu escritor de referência é o paulistano Marcos Rey, um escritor que, embora tenha ficado conhecido no universo infanto-juvenil (publicou quinze livros na finada coleção Vaga-lume, da Ática), publicou também obras adultas, duas delas inclusive recebendo o prêmio máximo da literatura brasileira, o Prêmio Jabuti.
Marcos Rey, pseudônimo de Edmundo Donato, era um mestre da narrativa e um escritor versátil. Antes de se dedicar somente a literatura, algo que ocorreu quando tinha por volta de 60 anos (morreu aos 74 anos), produziu roteiros de pornochanchada, telenovelas e minisséries, programas de rádio e peças publicitárias. Toda essa experiência foi o combustível para o desenvolvimento de seus personagens, tramas e enredos que tinha a cidade de São Paulo como pano de fundo.


Outra experiência que o marcou e que aparece em algumas das suas produções, foi a sua internação compulsória, como um prisioneiro, na década de 1940, quando descobriu que tinha hanseníase, conhecida antes como lepra. Na política paulista higienista da época os doentes eram retirados de circulação sendo aprisionados em sanatórios espalhados pelo estado de São Paulo. A doença e toda essa história só foi revelada quando o escritor morreu em 1º de abril de 1999. Até então, a informação circulava entre os familiares.
É possível conhecermos os detalhes da trajetória profissional e pessoal de Marcos Rey ao lermos duas obras que estão no mercado e que nos oferecem essa possibilidade. A primeira é uma biografia escrita em 2004 pelo jornalista da Veja São Paulo, Carlos Maranhão, intitulada Maldição e glória - a vida e o mundo do escritor Marcos Rey. A segunda é a autobiografia O caso do filho doencadernador: romance da vida de um romancista lançada pela Editora Global no início dos anos 2000.
A trajetória de Marcos Rey serve de referência para os aspirantes a escritores, pela sua persistência em nunca desistir de escrever histórias, publicar e viver de literatura, mesmo que isso tenha chegado muito tarde e que tivesse de produzir, com o seu talento, trabalhos de que não apreciasse muito. Inclusive esses trabalhos fora da literatura não lhe rendeu o prestígio e o reconhecimento de outros escritores e críticos da sua época. Atribuía isso a sua atuação como criador de textos para os meios de comunicação de massa, em alguns casos, por obrigação contratual e de interesse ou gosto duvidoso. Tais críticas considero inócuas, pois conquistar por duas vezes o Prêmio Jabuti, receber o troféu Juca Pato de Intelectual do Ano de 1995 depois de votação nacional tendo como concorrente o antropólogo Darcy Ribeiro, ocupar a cadeira 17 da Academia Paulista de Letras e formar um incontável número de jovens leitores brasileiros que tiveram contato com os seus livros, são indicadores suficientes da qualidade e do reconhecimento da importância da obra e do escritor Marcos Rey para a história da literatura brasileira.

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