terça-feira, 11 de abril de 2023

As mudanças que o câncer provoca na vida de uma pessoa

O jornalista e escritor Gilberto Dimenstein escreveu o livro Os melhores últimos dias da minha vida em parceria com a sua mulher, Anna Penido. O título aparentemente pode ser entendido como um paradoxo, já que nele o jornalista narra os seus últimos dias de vida por conta de um câncer agressivo que começou no pâncreas e se alastrou para o fígado e para os pulmões. Como o protagonista pode ter tido os melhores dias da sua vida numa situação dessas?

O leitor vai descobrir que mesmo o narrador estando prestes a morrer (o seu quadro de saúde era incurável) enxergava aqueles últimos dias como os melhores da sua existência e olha que ele tinha tido nos últimos anos, aos olhos das pessoas, uma vida muito interessante.

Dimenstein morou em Nova York e em Londres. Trabalhou para a Folha de São Paulo. Escreveu livros e ganhou importantes prêmios. Só isso já bastava para que a sua vida fosse recheada de excelentes momentos, porém, logo nas primeiras páginas o leitor descobrirá que embora fosse um jornalista e escritor bem sucedido, ele era, em suas palavras, um analfabeto em relação ao sentimento e ao afeto para com os outros. Fora isso, era uma pessoa viciada em trabalho e muito ansioso, o que tornava alheio as pessoas que estavam ao seu redor e que necessitavam de sua atenção, como a sua mulher e os seus filhos.

A chegada do câncer provocou uma ressignificação da vida do jornalista que passou a ter uma sensibilidade maior em relação ao que estava acontecendo ao seu lado e também as pessoas que estavam ao seu lado. Passou a valorizar os pequenos detalhes que uma vida é recheada: o vento beijando a face quando andava de bicicleta; o recebimento de um chá quentinho; a cama quentinha e espaçosa; o jardim em frente a sua casa (nunca o havia contemplado); os pássaros e os seus cantos atraídos pelo jardim; e principalmente, os abraços e os afetos que recebeu de várias pessoas.

Trata-se de um livro de amor à vida e jamais um livro melancólico e de auto-ajuda. É um livro que nos faz refletir sobre a quão bela é uma vida e o quanto ela se torna surpreendente e rica quando passamos a valorizar os seus mínimos detalhes. 

Após a leitura fica a lição de que nós podemos (basta querer, basta fazemos um exercício diário) comemorar e agradecer diariamente tudo o que temos, desde as coisas mais naturais e aparentemente simples, como respirar, escutar o canto dos pássaros, apreciar um banho quentinho, uma cama e um travesseiro gostoso... não precisamos apenas comemorar as grandes conquistas, pois a vida está mais recheada de pequenas conquistas do que grandes. Essas acontecem, mas com uma frequência menor (quantas vezes você troca de emprego para ganhar mais? Quantas vezes se casou? Quantas vezes trocou de carro? Quantas vezes fechou um grande contrato? Quantas vezes terminou uma graduação ou pós-graduação?).

Não espere as grandes conquistas para valorizar a vida. Comece hoje com o que você tem e o que chega até você, pois se por acaso você um dia ter um câncer em que não poderá mais caminhar, tomar um banho sozinho, dormir tranquilo e comer o que quiser, terminará os seus dias satisfeito e em paz e não precisará se lastimar por ter descoberto o prazer dessas pequenas coisas nos últimos dias da sua existência.