quarta-feira, 4 de março de 2020

Por que será que os brasileiro(a)s não leem muito

Responder a pergunta acima é um grande desafio em que é preciso eleger, digamos, alguns culpados. Simples demais é atribuir a culpa para somente um fator. A baixa quantidade de livros lidos passa pelo grande número de analfabetos e analfabetos funcionais no país. Também passa pelos impostos que incidem sobre o livro e que o torna caro demais em comparação com itens de primeira necessidade num país que é desigual, como o Brasil. A desigualdade econômica leve a privilegiar itens como a compra de comida em detrimento do investimento em leitura e que dirá de outros objetos culturais como o cinema, teatro, exposições, visitas a museus…
Podemos também culpabilizar a escola, no sentido de ela não conseguir gerar nos jovens estudantes o gosto e o interesse pela leitura, até porque muitas escolas não têm bibliotecas e, quando tem, os professores devido a uma formação precária não têm condições de gerar o interesse nos alunos pela leitura. Como incitar os alunos a lerem se o próprio professor não é chegado à leitura? Segundo os dados da última pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, de 2016, 16% dos professores não leem. Essa porcentagem é bastante considerável pelo número de professores que há no país. Também não podemos nos esquecer do currículo escolar, algo complexo, mas que se mostra distante da realidade e dos interesses dos alunos. Temos uma escola e um currículo enciclopédico do século XIX para uma sociedade do século XXI.
Se a escola não consegue formar leitores, no seio familiar também não, devido ao ciclo de precariedade da educação brasileira que formou também pais não leitores. Pessoas que no passado tiveram também pais não leitores e que vieram de escolas que também não lhe formaram como leitores não conseguirão passar para os seus filhos - que estão numa escola precária como estiveram os seus pais no passado e também os seus avós - o gosto, o interesse e o amor pela leitura. É um ciclo vicioso de destruição do gosto pela leitura.
Portanto, o somatório de uma família não leitora com o de uma escola não leitora, provoca nos jovens a falta de apetite pela leitura. Quando o jovem até se interessa em ler porque muitas vezes enxerga nesse objeto uma forma de aumentar o seu conhecimento e a sua inteligência, a tarefa da leitura é dentro de pouco tempo substituída por outra devido à sua má formação escolar que não lhe capacitou para ir além da decodificação das letras. Esbarrando na interpretação e na compreensão daquilo que se lê isso tira toda a vontade de continuar a atividade leitora.
Vale destacar a importância dos sebos espalhados pelo país na formação de leitores, para aqueles que conseguiram vencer o analfabetismo e o analfabetismo funcional. Os sebos muitas vezes são a porta de entrada da pessoa no universo da leitura, principalmente pelos baixos preços dos livros praticados (lembre-se, o Brasil é um país desigual em que uma massa de pessoas trabalhadoras não dispõem de muitos recursos). Se o sebo, então, promover atividades em torno do livro como clubes de leitura, por exemplo, isso alavanca ainda mais a possibilidade de complementar a formação de leitores que chegaram mal formados pela família e pela escola.
É urgente a alteração que deve ser feita no interior das escolas públicas - espaço frequentado pela maior parte dos estudantes brasileiros - passando também pela questão do currículo escolar, da infraestrutura (abertura, manutenção e valorização da biblioteca e espaços de leitura) e da formação dos professores. Essas alterações têm a força de formarmos uma geração mais apaixonada pela leitura e pelos livros do que a geração passada. Os filhos dessa geração que, tendo pais leitores, professores leitores e uma escola equipada, também perpetuarão para as próximas gerações a valorização do livro e da leitura. Geração em geração, amante da leitura, conseguiremos formar, de fato, um país de leitores.