O livro Azul Azul Azul e uma Nuvem Branca é o segundo romance da escritora paulistana Fernanda Cangerana e foi publicado em 2021 pela Scortecci Editora. Trata-se de um romance de apenas 115 páginas, mas não ache você que pelo número de páginas a história que ali está narrada é algo pueril, pelo contrário, acreditamos que a arte de escrever está no fato de uma pessoa conseguir narrar com profundidade e dizer tudo em poucas palavras, frases e, portanto, em poucas páginas.
No livro acompanhamos a história de Durvalino, mais conhecido como Durval que, como muitos brasileiros, saíram do Nordeste para o Sudeste em busca de novas e melhores oportunidades de trabalho. Ele, um pernambucano vivendo no Sertão, primeiro se muda para a capital para se formar médico e depois migra para São Paulo, onde conhece a doce e jovem Marília e a reboque, os seus cuidados pais, Anacleto e a Clotilde.
O livro narra a história de Anacleto e Clotilde em conjunto com o a de Durvalino e Marília e também de um personagem secundário, porém muito impactante na trama, que é o Agostinho chamado de Tinhão Sem Pernas, um garoto que se tornou mendigo nas ruas da capital paulista.
Escritores que narram histórias paralelas demonstram o domínio da escrita e da arte de elaborar tramas, pois trabalhar com vários personagens e acontecimentos ao mesmo tempo e conseguir encadeá-los e organizá-los numa história é realmente para poucos. Quase sempre vemos em escritores que começam bem e se perdem no meio da trama, deixando trazendo e sumindo personagens sem explicações ou deixando-os "soltos" na trama sem uma ligação com a história principal.
O mais gostoso do livro é a sensação de conhecermos a história de duas famílias: a de Durval, como Durvalino é chamado e a da Marília, sua namorada. Conhecer a história da família da namorada, no caso de Anacleto e Clotilde é viajar pela São Paulo antiga e pela construção de Brasília. Nesse ponto a escritora demonstrou bastante cuidado em descrever as paisagens e acontecimentos históricos com rigor, o que demonstra um cuidadoso processo de pesquisa história e geográfica que deixou o texto com muito mais verossimilhança.
Também destacamos o personagem Agostinho que aparece na trama num primeiro momento de forma aparentemente despretensiosa, mas num segundo momento a escritora dá uma atenção a sua história que, com certeza, impacta o leitor haja vista a semelhança que ele tem como outros "Agostinhos" que nós temos atualmente pelas ruas de São Paulo.
O romance nos provoca uma reflexão sobre as escolhas que nós fazemos, também sobre os momentos que nós vivenciamos e que na maior parte das vezes não aproveitamos como deveria e não damos importância, mas somente quando eles se tornam lembranças e memórias é que damos importância, mas daí já é tarde para aproveitarmos novamente.
No fim do livro a escritora vai estabelecendo um destino para todos os personagens e nos surpreende, pois no meio do livro a cabeça do leitor já consegue imaginar e traçar como será o destino de cada um, mas de forma majestosa e incrível parece que a escritora sabia o que o leitor iria desejar para cada personagem e muda completamente o fim, deixando-nos surpresos e um gostinho de sabermos o que os aguarda no futuro, algo que poderá ser explorado numa continuação.
Também é praticamente no fim da trama que vamos entender o porquê do título do livro, algo que está "escondido" na trama. Iniciamos o livro, lemos as orelhas dele e a sinopse e não conseguimos compreender o porquê do título, mas quando os encontramos na trama faz todo o sentido e dá ao leitor uma alívio (risos). Já leu algum livro e não entendeu o porquê do título? Não é angustiante?
A Fernanda Cangerana foi um dos talentos nacionais que descobrimos pelo poder das redes sociais. Demonstra ser uma romancista de mão cheia e com muito talento. Estamos ansiosos para ler os seus próximos livros, pois pelo que ela falou em nossa entrevista em breve teremos um novo livro.
