sexta-feira, 28 de junho de 2019

Segundas intenções: 29 de junho, às 11h

O prédio da Biblioteca de São Paulo fica dentro do Parque da Juventude, local que antes abrigava o Casa de Detenção, mais conhecida como Carandiru, palco daquela chacina que ocorreu nos anos 1990 e deixou um saldo oficial de 111 mortos. 

O acesso é muito simples e fácil, pois fica ao lado da estação Carandiru do metrô (linha azul). Aproveite para conhecer de perto o premiado escritor Luiz Ruffato (quem já o conhece é uma oportunidade de levar os seus livros para ele autografar), as instalações da biblioteca e também do agradável Parque da Juventude.

O "Segundas intenções" é um evento permanente da Biblioteca de São Paulo e uma oportunidade de conhecer o escritor, as suas obras, as curiosidades sobre elas e, principalmente, para os aspirantes a escritores, o seu processo criativo.


sexta-feira, 21 de junho de 2019

Um escritor que amava a pauliceia desvairada


Todo escritor tem um em que não só admira o conjunto da sua obra, quanto tem nele uma referência quando escreve. No meu caso, o meu escritor de referência é o paulistano Marcos Rey, um escritor que, embora tenha ficado conhecido no universo infanto-juvenil (publicou quinze livros na finada coleção Vaga-lume, da Ática), publicou também obras adultas, duas delas inclusive recebendo o prêmio máximo da literatura brasileira, o Prêmio Jabuti.
Marcos Rey, pseudônimo de Edmundo Donato, era um mestre da narrativa e um escritor versátil. Antes de se dedicar somente a literatura, algo que ocorreu quando tinha por volta de 60 anos (morreu aos 74 anos), produziu roteiros de pornochanchada, telenovelas e minisséries, programas de rádio e peças publicitárias. Toda essa experiência foi o combustível para o desenvolvimento de seus personagens, tramas e enredos que tinha a cidade de São Paulo como pano de fundo.


Outra experiência que o marcou e que aparece em algumas das suas produções, foi a sua internação compulsória, como um prisioneiro, na década de 1940, quando descobriu que tinha hanseníase, conhecida antes como lepra. Na política paulista higienista da época os doentes eram retirados de circulação sendo aprisionados em sanatórios espalhados pelo estado de São Paulo. A doença e toda essa história só foi revelada quando o escritor morreu em 1º de abril de 1999. Até então, a informação circulava entre os familiares.
É possível conhecermos os detalhes da trajetória profissional e pessoal de Marcos Rey ao lermos duas obras que estão no mercado e que nos oferecem essa possibilidade. A primeira é uma biografia escrita em 2004 pelo jornalista da Veja São Paulo, Carlos Maranhão, intitulada Maldição e glória - a vida e o mundo do escritor Marcos Rey. A segunda é a autobiografia O caso do filho doencadernador: romance da vida de um romancista lançada pela Editora Global no início dos anos 2000.
A trajetória de Marcos Rey serve de referência para os aspirantes a escritores, pela sua persistência em nunca desistir de escrever histórias, publicar e viver de literatura, mesmo que isso tenha chegado muito tarde e que tivesse de produzir, com o seu talento, trabalhos de que não apreciasse muito. Inclusive esses trabalhos fora da literatura não lhe rendeu o prestígio e o reconhecimento de outros escritores e críticos da sua época. Atribuía isso a sua atuação como criador de textos para os meios de comunicação de massa, em alguns casos, por obrigação contratual e de interesse ou gosto duvidoso. Tais críticas considero inócuas, pois conquistar por duas vezes o Prêmio Jabuti, receber o troféu Juca Pato de Intelectual do Ano de 1995 depois de votação nacional tendo como concorrente o antropólogo Darcy Ribeiro, ocupar a cadeira 17 da Academia Paulista de Letras e formar um incontável número de jovens leitores brasileiros que tiveram contato com os seus livros, são indicadores suficientes da qualidade e do reconhecimento da importância da obra e do escritor Marcos Rey para a história da literatura brasileira.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

As aparências enganam


O amparense Marçal Aquino é um dos grandes escritores brasileiros contemporâneos. Domina a narrativa como poucos e no brinda com bons textos, como O Invasor, uma tensa novela ambientada em São Paulo em que tudo o que passamos a acreditar ao longo dela é desfeita, de forma genial, ao final dela.

O livro narra uma trama vivida por três personagens: Estevão, Alaor e Ivan, que são sócios de uma construtora sediada na cidade de São Paulo. Devido à negócios escusos propostos por Alaor e Ivan, mas que renderão altos dividendos para a construtora, Estevão se opõe e quer impedir essa falcatrua seja concretizada, é quando Alaor e Ivan recorrerem a um serviço de matador de aluguel para dar cabo a vida de Estevão, mas o que menos eles esperavam, é que o assassino começa a fazer parte da vida deles e da empresa, até um desfecho inesperado.


Aquino construiu no livro uma bela narrativa policial, aonde os fatos acontecem de forma linear facilitando a compreensão do leitor. É um texto com suspense, tensão e, principalmente com pitadas de humor, o que nos leva a rir em alguns trechos e isso alivia um pouco o peso de uma trama policial que contém mortos, jogos de interesse, corrupção e outros ingredientes mais pesados. O mais interessante da obra é que tudo o que começamos a pensar sobre os personagens, são desconstruídos depois, ratificando a característica de uma obra policial em que "as aparências enganam".

Vale dizer que o processo da escrita desta obra foi sui generis, haja vista que um certo dia, o escritor recebeu em sua casa um amigo, o cineasta Beto Brant, que perguntou o que Marçal estava escrevendo. Aquino entregou alguns originais do livro para Beto dar uma lida e fazer algum comentário. Eram poucas páginas e assim que o cineasta leu, imediatamente quis produzir um filme, para desespero de Aquino, pois a história não havia ainda sido terminada.

Beto Brant então convenceu Aquino de terminar a história enquanto produzia o roteiro para o filme O Invasor. Portanto, o filme saiu primeiro que o livro (abaixo, você pode conferir a íntegra do filme). Pouco tempo depois, Marçal Aquino voltou para a história e terminou de produzir o livro, para desgosto dele, pois numa das entrevistas que Aquino já concedeu, ele disse que quando começa escrever uma história, não gosta de saber o final dele. Escreve sem amarras, sem fatos pré-definidos e quando ele foi terminar o livro, devido ao roteiro anteriormente escrito, já sabia como que aquela história terminaria.


Eu me lembrava vagamente do nome de Marçal Aquino por uma história publicada pela Ática na famosa coleção Vaga-Lume. Anos se passaram e não "percebi mais a presença do autor", até que ao assistir numa terça-feira (quando o programa ainda passava às terças-feiras na TV Cultura) uma entrevista dele no programa "Provocações", tão bem conduzido pelo saudoso Antônio Abujamra, gostei muito do que eu assisti e passei a ter mais interesse nas obras do autor. Abaixo, você pode assistir a primeira parte da entrevista.


Participei de duas entrevistas, ao vivo, que ele concedeu na Biblioteca de São Paulo. Nesses bate-papos com tom informal realizados aos sábados, pude conhecê-lo melhor. Conhecer a sua trajetória, a sua forma de escrever, os seus projetos, sonhos e desafios. Logo percebi que eu estava conhecendo um dos grandes escritores contemporâneos brasileiros, que tem habilidade em narrar histórias, seja ela na forma de conto, novela ou um denso romance.

Para a (in)felicidade dos leitores de Marçal Aquino, ele agora está trabalhando para a Rede Globo, na escrita de roteiros para minisséries, como "Força Tarefa". Tal atividade, segundo o autor disse numa entrevista, tem tomado muito tempo dele, tirando o tempo disponível para produzir literatura, que é uma grande pena.



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domingo, 9 de junho de 2019

Um terror baseado em fatos reais

O livro de terror O Açougue Maldito (224 páginas, Editora Lexia) é o livro de estreia do escritor Luis Augusto Pereira e foi escrito baseado nos crimes que ocorreram na Rua do Arvoredo, em Porto Alegre, no final do século XIX.


A história presente no livro não se passa no Brasil do final do século XIX. O autor, de forma genial, trouxe-a para a Ditadura Militar, período que por si só foi um período de terror. Utilizando-a como pano de fundo, Pereira conseguiu explorar o seu potencial para imprimir na sua narrativa esse momento de tensão, suspense e medo na história brasileira, complementado com muitas outras cenas que deixam qualquer leitor apreensivo.

A história narra a chegada de Rose Ramos a uma cidadezinha onde crescera com os seus pais, mortos sem explicação e cujos corpos nunca foram encontrados. Dos pais, sobrou apenas um casarão abandonado onde Rose Ramos passa a viver com o seu filho pequeno, mas a casa guarda para a dupla muitos momentos de angústia e medo. Se não bastasse, há ainda a figura de um açougueiro misterioso que tira a paz da protagonista.

O autor conseguiu dosar bem os momentos de terror psicológico e de um terror mais carregado de sangue. Outro ponto que eu considero relevante é o autor ter optado por uma protagonista feminina. De modo geral, escritores masculinos sempre optam por protagonistas do mesmo sexo. O sexo oposto é um desafio para a escrita deles, já que sentimentos, hábitos, pensamentos entre outras características das mulheres se configuram num terreno desconhecido, mas o autor parece conhecer esse universo, tão bem retratado na pele da personagem principal Rose Ramos.

Destaco também a força do argumento da história tão bem explorada pelo escritor ao longo das páginas. Pereira construiu basicamente uma história linear, cujos fatos vão se sucedendo um atrás do outro, com pouquíssimos flashbacks da protagonista, mas que quando existem, ajudam a delinear as características conflitantes da personalidade da personagem.

A história se desenrola de modo ágil a cada capítulo, deixando o leitor apreensivo em saber o que ocorrerá no próximo levando-o a não largar o livro por hipótese alguma até o desfecho surpreendente.

O principal ponto negativo do livro ficou por conta da má revisão que impediu uma leitura com maior fluidez. Há muitos erros de ortografia, acentuação e, principalmente do emprego de vírgulas.

Outro ponto importante é a necessidade de uma revisão mais apurada sobre a estrutura do texto, pois há muita repetição de expressões e palavras desnecessárias. Senti também a falta de mais diálogos entre os personagens. Quando isso ocorre, são sempre muito rápidos e superficiais. O autor poderia ter explorado o fato das pessoas viverem numa cidadezinha do interior para imprimir na fala dos personagens caracteres regionais. Ficaria bem interessante um contraste entre a fala da personagem principal, que morava na cidade, com as pessoas do interior.

Acredito que uma boa revisão para uma próxima tiragem deixará o livro muito melhor do que já é, aumentando o poder de provocar em quem lê, o medo e a angústia, companheiros dos leitores que se aventuram a ler "O Açougue Maldito".

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sábado, 8 de junho de 2019

Marcos Rey para adultos

O escritor paulistano Marcos Rey ficou famoso e inclusive passou a viver somente de literatura, depois que se tornou integrante do time de escritores da saudosa Coleção Vaga-Lume, publicada pela editora Ática.

Rey escrevia magistralmente tendo sempre como pano de fundo a cidade de São Paulo, lugar que tinha um grande apreço. Nesse cenário criou inúmeras novelas recheadas de suspense, investigação policial, assassinatos e aventuras. Suas novelas eram publicadas principalmente para o público infanto-juvenil, contribuindo, assim, para a formação de inúmeros leitores. Marcos Rey nos deixou em abril de 1999 queixando-se, em algumas oportunidades, que gostaria de ser conhecido e reconhecido também pela sua produção literária adulta.

Um livro que faz parte da seara de novelas escritas para os adultos é "O último mamífero do Martinelli", que inclusive conquistou o 36º Prêmio Jabuti em 1994. Mais uma vez, a história se passa na cidade de São Paulo, dentro de um arranha-céu que chegou a ser o maior do Brasil e da América Latina.


Fugindo da repressão da ditadura civil-militar brasileira, um homem encontra refúgio no Martinelli, fechado para reforma. Ali, o personagem encontra em cada sala que invade, além de objetos para vender e conseguir se alimentar, histórias das pessoas que ali passaram, tudo excepcionalmente narrado por um dos maiores escritores que o Brasil já teve.

O livro foi publicado originalmente pela editora Ática, mas depois toda a obra do escritor passou a ser publicada pela editora Global.

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